

A lista de seis pré-candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul, divulgada nos bastidores da sucessão estadual, chama atenção por um detalhe que já deveria causar constrangimento em 2026: a ausência de mulheres entre os nomes colocados como protagonistas da disputa.
O problema não é a falta de mulheres capacitadas, preparadas ou interessadas em participar da vida pública. O problema é que, apesar dos discursos inflamados em defesa da igualdade, a política brasileira continua funcionando como um clube onde as mulheres são convidadas para a fotografia, mas raramente para ocupar o centro da cena.
Nos palanques, dirigentes partidários falam sobre representatividade, diversidade e inclusão. Nas redes sociais, publicam homenagens no Dia Internacional da Mulher. Nos eventos, fazem discursos emocionados sobre a importância da participação feminina. Mas, quando chega a hora de definir candidaturas competitivas, liberar recursos de campanha e construir alianças, muitas mulheres descobrem que o apoio prometido desaparece.
Pior ainda: aquelas que ousam disputar espaços tradicionalmente ocupados por homens frequentemente enfrentam resistência dentro dos próprios partidos. São questionadas com mais rigor, julgadas com mais severidade e submetidas a pressões que raramente recaem sobre candidatos do sexo masculino.
A comparação pode parecer forte, mas não é exagerada. Muitas mulheres que tentam construir uma carreira política acabam sendo atacadas, desacreditadas e isoladas até desistirem do projeto. Em determinados ambientes partidários, apanham politicamente mais do que Maria Madalena apanhou na interpretação popular da história bíblica. Não porque lhes falte capacidade, mas porque ainda incomoda ver mulheres disputando poder de igual para igual.
É curioso observar que os mesmos grupos que defendem renovação política costumam reproduzir velhas práticas quando chega a hora de dividir espaço. Querem novos nomes, desde que não alterem a estrutura de poder existente. Querem modernidade, mas sem abrir mão dos privilégios acumulados ao longo de décadas.
A consequência aparece nas estatísticas e nas chapas eleitorais. Mulheres são maioria da população e do eleitorado, mas continuam minoria nos cargos de comando. Não por falta de competência, mas porque ainda enfrentam barreiras invisíveis que transformam a corrida eleitoral em uma prova muito mais difícil.
Enquanto a política continuar tratando candidaturas femininas como exceção e não como parte natural da democracia, a distância entre discurso e prática seguirá enorme. E cada nova lista de pré-candidatos formada quase exclusivamente por homens será mais uma evidência de que a igualdade defendida nos microfones ainda não chegou às salas onde as decisões realmente são tomadas.
